sábado, 9 de abril de 2011
Paralelo
Era uma vez (falta de uma forma criativa de se começar) uma guria de muitas vidas. Quero dizer, mais ou menos como múltiplas personalidades. Mas na verdade, ela vivia em mundos paralelos, e tinha que tomar conta pra não ser pega em flagrante quando trocava seus disfarces. Assim, a guria não se cansava nunca daquilo que era, afinal, ela nem ao menos sabia quem era de verdade. Hora era furacão, causando estragos imensuráveis por onde passava, hora era mansidão, que ninava o mais nervoso dos brutos. Seus disfarces eram discretos, coisas de expressão. Sabia fazer com que seus olhos ardessem como brasa, de ira ou paixão, ou com que virassem pó de tristeza, semi-cerrados por pura covardia. De cidade em cidade, a guria ia se divertindo com suas habilidades performáticas, e não deixava de fascinar, mesmo quando passava rápido como um visto de lápis no papel. Fascinava justamente pela possibilidade de não ser humana, como pode alguém ser a expressão exata de sentimentos reais, e ao mesmo tempo, nunca ser atingida ao ponto de sucumbir? Ela fugia na hora certa, nunca se atrasava. Às vezes, a própria guria se surpreendia com a rapidez com que mudava de personagem e se livrava de todos os resquícios de caracterização (e de dor), começando, de novo, do zero, sua nova e fugaz vida. Mas um dia morreu (sim, era humana. E mortal). E foi enterrada como indigente.
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